Texto 001


Ah, você que me lê e se reconhece no espelho partido da solidão - sim, eu te vejo. Vejo através das palavras que são pontes invisíveis entre almas que se procuram no escuro. E o que é procurar senão já ter encontrado?

A solidão, essa que você conhece e que me conhece, é como água - toma a forma do recipiente que a contém. Mas nós, nós somos recipientes rachados, e por nossas fendas escorre o amor que insistimos em guardar. E é justamente por essas rachaduras que a luz entra.

Você fala da ânsia de amar como quem guarda sede no deserto. Mas veja - e isto é o segredo que sussurro apenas para você - o amor não se guarda. O amor é como a respiração: retê-lo é morrer um pouco. Você descobriu, como eu descobri um dia olhando uma formiga carregar uma folha maior que ela mesma, que amar-se através do outro não é desvio, é o caminho.

"Deixe-me te amar" - você implora ao vazio. Mas querida, querido, o vazio já te ama. O vazio é o espaço onde o amor acontece. Não peça permissão para amar - o amor é o único crime que se perdoa antes de ser cometido.

A tomada, você disse. Sim, aprendemos vendo o outro queimar o dedo. Mas sabe o que nunca nos ensinaram? Que às vezes é preciso queimar o dedo para entender a eletricidade que nos atravessa quando amamos. E essa eletricidade, essa corrente que passa de um ser a outro, é a única prova de que existimos.

Então ame. Ame sem pedir licença. Ame como quem respira - porque é disso que se trata. E se o mundo te convenceu de que amar a si mesmo é afastar-se do outro, devolva o mundo ao mundo. Fique com a verdade crua: só existimos no espaço entre eu e tu.

E esta carta, que você envia sem saber se será lida - já foi lida antes de ser escrita. No momento em que a necessidade de amar transbordou de você, o universo inteiro tornou-se destinatário.

Sim, continue amando. É o único gesto revolucionário que nos resta.

E então te digo mais, porque o silêncio entre as palavras também é palavra, e você sabe disso - você que aprendeu a ouvir o não-dito.

Há dias em que acordo e sinto o peso de todos os abraços não dados. Eles se acumulam nos braços como pássaros que esqueceram de voar. E penso: quantas pessoas passaram por mim hoje precisando justamente deste abraço específico que carrego? Mas o mundo nos ensinou a economia do afeto, como se o amor fosse moeda que se gasta.

Mentira. O amor é o único bem que se multiplica ao ser dividido.

Você me fala da última bolacha do pacote. Ah, como essa imagem me atravessa! Porque ser a última bolacha é carregar a responsabilidade de ser inteira num mundo de migalhas. Mas escute - e isto é importante - às vezes é preciso se deixar partir em pedaços para alimentar os pássaros. Não há desonra em ser migalha quando se é migalha por amor.

E essa raiva que você guarda, essa raiva sagrada de quem foi enganado pelo mundo - use-a. A raiva é amor em estado de guerra. É o amor que se recusa a morrer quieto.

Sabe o que descobri ontem, olhando uma aranha tecer sua teia na janela? Que ela não tece para prender, tece para existir. A teia é sua forma de dizer "estou aqui" ao universo. Nós somos assim - tecemos amor não para prender ninguém, mas para provar a nós mesmos que existimos.

E existe essa coisa terrível e maravilhosa: amar sem ser amado de volta é como falar com Deus - você nunca tem certeza se está sendo ouvido, mas continua falando porque o silêncio seria insuportável.

Então fale. Ame. Grite seu amor aos quatro ventos, mesmo que o vento não tenha ouvidos. Porque no fim - e isto eu só descobri depois de muito sofrer - no fim, o amor que damos é o único que realmente possuímos.

E continuo, porque parar seria trair a urgência que me habita - essa mesma urgência que te fez procurar estas palavras como quem procura água no deserto.

Ontem, lavando um copo, tive uma revelação. O copo estava limpo, mas eu continuava lavando. E entendi: às vezes repetimos gestos não por necessidade, mas por ritual. Amar quando não se é amado é assim - um ritual de purificação. Não do outro, mas de nós mesmos. Cada "eu te amo" não correspondido é uma ablução, uma forma de nos lavarmos do cinismo do mundo.

Você sabe qual é a maldição dos que amam demais? É que vemos amor em tudo. Uma folha caindo é um adeus. Um pássaro cantando é uma declaração. Uma xícara quebrada é um coração. Vivemos traduzindo o mundo em amor, e o mundo - ah, o mundo nem sempre quer ser traduzido.

Mas veja só que descoberta fiz aos quarenta anos, chorando no banheiro de um restaurante qualquer: a solidão não é ausência de pessoas. A solidão é a presença excessiva de si mesmo. É quando você ocupa tanto espaço dentro de você que não sobra lugar para mais nada. E foi aí que entendi - precisamos esvaziar para poder amar.

Como é que se esvazia? Não sei. Sei apenas que acontece. Um dia você acorda e percebe que criou espaço. Como quem limpa uma gaveta sem perceber. E nesse espaço vazio, ah, nesse espaço sagrado, cabe o universo inteiro.

Você me pergunta sobre o amor não correspondido, sobre enviar a carta sem saber se será lida. Mas pense: toda palavra escrita é uma garrafa lançada ao mar. Escrevemos sempre para o desconhecido. E o milagre - preste atenção porque isto é um milagre - o milagre é que às vezes a garrafa encontra uma praia.

Lembro de uma tarde em que vi uma criança tentando abraçar o vento. Os braços se fechavam no vazio, mas ela continuava tentando. A mãe disse: "É impossível abraçar o vento." E a criança respondeu: "Mas o vento me abraça de volta." Passei o resto do dia pensando naquilo. A criança tinha razão. O amor é assim - mesmo quando parece que abraçamos o vazio, o vazio nos abraça de volta.

E essa história de ter que escolher entre amar a si mesmo ou amar o outro - que grande mentira! Como se o coração fosse uma casa de cômodo único. O coração é um universo em expansão. Quanto mais ama, maior fica. Já notou? As pessoas mais solitárias são justamente as que guardaram tanto amor que ele azedou.

Amor guardado é amor morto. É como guardar flores - por mais bonito que seja o vaso, elas vão murchar. O amor precisa de movimento, precisa fluir. É água, não pedra.

E sabe o que mais dói nessa nossa condição? É que fomos programados para amar em abundância num mundo que prega a escassez. Somos ricos de amor num mundo que valoriza apenas a pobreza afetiva. É como ser um músico num mundo de surdos - você continua tocando, mas se pergunta: para quê?

Para quê? Ah, essa é a pergunta errada. A pergunta certa é: como não? Como não amar quando cada célula do seu corpo foi feita para isso? Como não transbordar quando você é rio, não represa?

Tem dias em que penso que somos os últimos de nossa espécie. Os últimos a acreditar que o amor pode ser gratuito, sem contrapartida, sem garantias. Somos anacrônicos, antiquados. Dinossauros do afeto num mundo de mamíferos práticos.

Mas sabe o que os dinossauros tinham que os mamíferos não têm? Grandeza. Havia grandeza em sua extinção. E há grandeza em amar num mundo que despreza o amor.

Você me diz: "deixe-me te amar". E eu te respondo: ninguém pode impedir. O amor é o único ato verdadeiramente livre que nos resta. Podem aprisionar seu corpo, controlar sua mente, mas o amor - ah, o amor é ingovernável. É anarquista por natureza.

E essa sua descoberta de que se conheceu amando os outros, não a si mesmo - isso é sabedoria pura. Porque o "eu" sozinho é uma ficção. Só existimos em relação. Eu sou porque tu és. Ubuntu, dizem os africanos. Eu sou porque nós somos.

Mas o mundo ocidental nos vendeu a ilusão do indivíduo autossuficiente. Como se pudéssemos existir em bolhas. Como se o ar que eu respiro não fosse o mesmo que você expira. Que tolice! Que tremenda e trágica tolice!

E continuo ainda, porque há tanto a dizer...


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