Semana 42
sete de paus
justica
quatro de ouros
knight de espadas
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SPEAKER 1
Eu acho muito engraçado o quanto a ordinariedade hoje em dia é exaltada mais do que qualquer tipo de comportamento fora da ordinariedade. Independente de qual seja. Independente. você nunca vai ser tão paparicado, tão elogiado, tão amaciado quanto se você for uma pessoa extremamente comum, que fala e só repete as mesmas frases que todo mundo, as mesmas frases que você só fala porque pra você não serve. Então, sim, são pessoas que Qualquer coisa que você fala além, ela olha pra sua cara, tipo... Você faz terapia? Tipo... Moça, não. Não faço. Te garanto que se eu fizesse isso que eu acabei de falar, não ia mudar. Podia mudar alguma outra coisa, mas... Bom dia. As pessoas acham que o quê? Que tá todo mundo indo na terapia, para que cada vez mais o mundo seja mais homogêneo? Está todo mundo caminhando para a ordinariedade por conta da terapia? Não. Literalmente não. Eu não sou... Foi o número um. formas com que acontecem a terapia hoje em dia. Hoje em dia não, sempre. Mas eu tenho que defender que assim, não tem nada a ver com isso. E aí eu fico vendo esses vídeos, tipo, de pessoas falando as coisas mais básicas do planeta. E até aí, eu vou fazer o quê? Eu espero que as pessoas só sejam geniais o tempo inteiro? Não. Eu acho meio... Você vê na internet falar? Sim. Mas o que eu vou fazer? Só cheirar. Aí... Pra piorar, se você fala qualquer coisa fora disso, a primeira reação das pessoas vai ser tipo... Na verdade, eu acho muito difícil não ser... Não ser um certo, tipo... Uma repulsa, assim, tipo... Bro, escuta o que eu tô falando. Escuta, depois você toma a sua opinião, tipo... É um negócio muito louco, é tipo... Eu não sei se essas pessoas... que repetem literalmente as mesmas frases que todo mundo repete, que ninguém segue uma sequer palavra que elas falam, se elas realmente, tipo, sentem, nossa, eu alcancei o nível mais alto de consciência, tipo, eu não sei se elas pensam isso, eu não sei o que é pior, se elas pensam isso, ou se é uma, tipo, conformidade ali com Sabe? Tipo, eu não sei. Sinceramente, eu não acredito que alguém que tenha a mínima capacidade mental, um pouco acima do ordinário, alguma vez na vida tenha a coragem de chegar na internet e falar uma coisa dessas. Porque pra você chegar na internet e falar uma coisa dessas é porque você já tá à vontade com essa coisa. E uma pessoa que tem uma cabeça minimamente normal, ela não vai ficar à vontade com isso. Ou seja, Eu acho que é uma regra pra você, tipo... Falar essas coisas, você necessariamente tem que ser, tipo, muito limitado, assim. E eu não... Tipo assim, eu posso falar... Eu acho que minha maior raiva não é nem... Não é nem... Tipo, ai... Sua... Sua... Prato. Tipo, é um... Você é um prato. Tipo... Me fala alguma coisa, tipo, fala alguma coisa. Porque quando as pessoas falam essas coisas, pra mim nem... Eu escuto tanto que nem parecem mais palavras. Entende o que eu quero dizer? Tipo... Tipo, parece que... Evapora. Eu não sei, que cancela com o silêncio. E aí eu, tipo, tá, o que você vai falar? Porque já virou, tipo, assim... Quase que respirar faz o mesmo som que falar essas palavras. E aí? A pior de tudo que eu ia falar é que... Ok, você quer exaltar uma pessoa dessa? Beleza. Agora, não... Não! Não reprima as pessoas que não conseguem pensar desse jeito. Porque eu vou ser muito sincera, se eu pudesse escolher, Se eu pudesse escolher, nossa senhora, eu era a primeira na fila pra ser colocada na lista das portas. Tipo, o meu sonho era sair por aí e falar... Ai, eu me curei na terapia em seis meses, tipo assim, do meu ######### #########, ###. Eu vomitava uma vez a cada dois anos. E sabe, era muito pesado e tal. E hoje eu não sei se eu consigo falar sobre isso, mas eu fui na terapia. E eu conversei com ela, e aí, tipo, eu super me curei. E aí, depois que eu super me curei com a terapeuta, tipo assim... Eu tô super bem comigo mesma, tipo, eu me amo. E eu não vou deixar ninguém pisar na minha cabeça. Porque eu super me amo. E meu avó é uma merda. Tipo, sinceramente. Sinceramente, e eu falo isso de coração, porque eu queria muito ser essa pessoa. Imagina a paz que é dentro da cabeça de uma pessoa dessa. Imagina! Meu sonho, meu sonho de vida era ser a ### ####, não uma, a. É tipo assim, ver assim, ó. Porque no final do dia, E eu só tenho 22 anos e eu já sei disso? Não. Você arrecadar conhecimentos não é mais legal do que você não arrecadar conhecimentos. E isso eu não tô falando de, ah, eu quero aprender xadrez. Não. Não. Não tô falando disso. Estou falando de você ter uma cabeça, que no dia a dia vai recolher mais informações do que outras pessoas. É a pior coisa que você pode fazer na sua vida. Na verdade, não fazer porque você não escolhe, mas é tipo... é horrível, é péssimo, não te traz nada de bom. Porque você adorava pensar, você adorava pensar e tomar suas conclusões até que isso virou um distúrbio quase na sua cabeça e agora pensar que é uma coisa inevitável que você vai fazer te deixa perturbada, então é um ciclo vicioso, absurdo. Você tem que escutar de pessoas. Não, porque a minha família tava morrendo, e aí tipo, o que que eu fiz? Eu fui na academia correr pra liberar as emoções. ####. Depois eu vou te contar uma coisa muito triste, infelizmente. Por mais idiota que isso possa parecer. Por mais idiota que isso possa parecer. Querendo ou não, se o seu tio tá morrendo, Não tem o que você pode fazer, a não ser liberar suas emoções, ponto. Ai, eu liberei minhas emoções pulando de bungee jumping, eu liberei minhas emoções correndo na esteira. Ok, não tem o que você fazer, você fez correto, você fez a única coisa que você tinha para fazer. É uma dor muito maior, é uma dor muito maior, mas é uma dor diferente, é uma dor É uma dor, não é uma angústia, não é uma dúvida, não é uma ansiedade. E não tô falando que esse é pior, não. Estou falando que é diferente, não se lida com um como se lida com o outro. Se o seu tio vai lá e morre, não tem o que você fazer. Não tem. Você vai ter que correr na esteira, você vai ter que pular de bungee jump, você vai ter que fazer o que for para liberar as emoções, porque não tem onde colocar elas. Agora, Eu sou 100% convicta de que a única forma de você me dizer isso daqui não dá é porque aconteceu a morte. Seja com o que for, seja com uma coisa, seja com uma pessoa, seja com o que for. De resto, por mais que eu pareça ter a pior fé do mundo, eu juro pra você que eu sou a última a acreditar, não é, realmente não vai dar. Tipo, eu sou a última, eu sou a última. Eu não, normalmente, né, se tá chegando perto e eu percebo, tipo, nossa, talvez eu não consiga e tals, Eu não fico por aí falando o quanto eu acredito, não. Eu vou ficar mais seclusa, provavelmente ninguém vai saber que eu ainda acredito. Lógico, não daquela forma de antes. Provavelmente já bem chateada e ansiosa, mas... Mas é isso, é tipo... Ao mesmo tempo que olham pra minha cara e falam assim... Por que você não muda? ####, eu literalmente não mudo. Na verdade, não é só que eu não mudo, eu literalmente estou da forma com que eu tô porque muitas pessoas chegaram na minha cara e falaram, é a vida, aceita. A vida é assim, você tem que aceitar. Não, eu não vou. Não, eu não vou. E aí? Bom dia. Ou seja, você se decida. Se você está me dizendo, não, tipo assim, você super pode se esforçar, mas você vai poder chegar, tipo, até onde a vida deixar você chegar. Então, um beijo na bunda. Um beijo na bunda. Porque eu não vou, grátis, viver minha vida inteira. Aí você fala assim, nossa, mas você tem 22 anos, como é que você tá falando isso? Pois é, diva, pois é. É lógico que eu não tenho a consciência da grandeza que é a vida quando eu tiver 70 anos. Eu não tenho, tá? Ponto final. Agora, quando você está 24 horas com a sua cabeça, a única coisa que importa é o quê? A sua cabeça. Eu sei que eu não sou uma coitada. Não, não é. Não estou pedindo para ninguém ter dó de mim. Tanto porque eu sei que seja psicóloga, pode ser terapeuta, pode ser o que for. Não tenho o que fazer. Eu não vou pensar diferente do que eu penso. Você pode me dar um remédio que vai fazer, por exemplo, a minha cabeça pensar menos literalmente. Você vai me dar um remédio que os meus neurônios vão parar de fazer as suas ligações literalmente falando. Aí eu posso falar ok. Tirando isso, não tem o que você fazer, porque a minha... Quando eu percebi tudo que eu percebia, acabou. Essa parte de mim, eu antes disso, não vai existir mais. Aí você pode falar assim, nossa, que pessimista. Não, óbvio que não. É porque se você escuta o que eu falo e a única coisa que você entende é o que você escuta, então parabéns, você faz parte dos Vou falar bobões. Dos bobões. Mas pra quem não faz parte dos bobões, você pode seguir comigo. Isso nunca significou que... Nossa, então quer dizer que eu vou pra bosta. Não. Eu posso ir pra muito melhor. Eu posso ir pra igual. Eu posso ir pra qualquer... eu posso ir pra igual no sentido da mesma quantidade de estar bom, mas não da mesma forma com o que aconteceu antes, com o que aconteceu antes. Não, ponto final. E... Eu pensando agora, eu não tenho muita certeza quando as pessoas vão fazer terapia, se o que passa na cabeça delas aonde que a minha cabeça tem que chegar pra ser melhor, pra tipo, curar certas coisas, ou o que eu preciso tirar da minha cabeça, no sentido de ser um processo completamente retroativo, ou ser um processo completamente pra frente. E eu sempre vi que se eu quisesse consertar certas coisas, Por mais que sim, eu estivesse indo pra frente, o caminho era... Bom, caminho não. Porque nunca deu certo, né? Não tinha como dar. Mas é tipo... O remédio aqui era eu tomar uma pílula que me fizesse esquecer sobre isso aqui. Eu esquecendo que eu passei por isso aqui, acabou. Acabou. Não é a minha cabeça que é cagada. Não sou eu. Não sou eu, não. Eu sou... o que eu com 10 anos era. Hoje, eu estou presenciando a minha eu pós certas coisas, porém, por não ser eu, existe A mínima que seja a esperança dentro da minha pessoa de que vai mudar. Ponto final. Eu jamais teria aguentado minha vida inteira sem o que eu sou hoje. Ponto. Só que... Acredite que eu sou a primeira pessoa a ter toda a esperança do mundo que eu vou mudar. Ai, mas você então tá esperando sentada? Aham! Sim, diva! Sim! Depois de contar tudo isso que eu já te contei, o seu primeiro pensamento é, você tá esperando sentada? Não! Eu acho que é uma boa ideia que você teve, eu acho que é um bom pensamento. Primeira coisa, sobre o meu primeiro fato. Eu nunca vou falar em voz alta algo que me incomoda. se eu já não pensei em todas as possibilidades possíveis dentro da minha cabeça?" Começa por aí, dentro da minha cabeça. Isso significa o quê? Existe a possibilidade de eu falar isso pra alguém e a pessoa me dar a resposta que pra muita gente pode ser a mais óbvia do mundo. Você fala assim, como é que você não pensou nisso? Pois é, eu pensei em todas as possibilidades que existiam dentro da minha cabeça e que eu consegui fazer dentro da minha cabeça. Por isso que eu estou aqui falando isso pra você. E nunca... E se eu começo lá... Ai, não, porque isso aqui... Não é porque eu não queira resolver. Confia em mim que não é porque eu não queira resolver. É porque eu já experimentei e deu errado. Entendeu? E aí... Eu não posso julgar ninguém por não saber... o que eu diariamente passo mentalmente de tempo analisando eu mesma, por exemplo. Eu não posso julgar ninguém porque não sabe que eu fico literalmente escrevendo sobre todos os comportamentos que eu percebo de mim e de todo mundo. Eu não... Bom, não vou dizer que eu não espero, porque se você... Em um primeiro momento, assim, no choque... No choque você... Não é que você esperava. Mas você só não queria escutar, talvez. Só não queria escutar que, tipo, diva, não vão te entender. E, obviamente, falando num negócio desse, a primeira coisa que vem na minha cabeça é... Nossa, como você se acha? Bom... Várias e várias e várias e várias vezes, eu... É... Eu quis conversar sobre isso, mas até mesmo com terapeutas eu não me sentia confortável, porque eu pensava... Tipo... Eu não consigo falar sobre isso sem que em algum momento eu insinue que algumas pessoas são um pouquinho mais boas. E... E tipo... Sei lá. Na verdade, é que... Eu não convivo e eu não passo nenhum tempo com pessoas boas. Zero. Tipo, se você está comigo, você não é burra. Você tem a capacidade mental pra entender o que eu tô te falando. Talvez você, no momento, não queira. Talvez você seja maldosa. Talvez você seja... É... Talvez seja o que for, mas eu jamais estarei andando com alguém por mais de cinco minutos que eu fale uma coisa e ela não entenda o que eu tô falando. Aí, quando essas pessoas, que eu sei que me entendem, ou dão uma de preguiçosa, ou pior, realmente não me entendem, nem seja por um segundo que eu percebo a cara delas de não me entender, na hora eu corto a conversa. Porque eu acho que eu tenho pânico, por mais que eu saiba que muitas pessoas não entenderiam a minha cabeça. me dá pânico ver isso na minha cara. Então, me conforta pensar que, não, se um dia eu falar, vão te chupar, super não entender. E, obviamente, eu me sinto mal falando isso, porque eu já senti algumas psicólogas não entendendo o que eu queria dizer. Óbvio, tiveram outras que sim, que bizarramente me entenderam, que eu não precisava nem falar direito E não se tratava de tipo... Nossa, você não tem conhecimento sobre a psicologia. Não, tipo, não é sobre isso, sabe? Eu não tô te jogando pra bosta. É que não é o mesmo entendimento. Tipo... Não é o mesmo entendimento, sabe? Não é a mesma linha de raciocínio. Eu vou pra um lado, você vai pro outro. E... E por mais que você explique quem não te entende, você sabe que não te entende. Não é nem... É tipo... É um negócio muito específico, assim. É que eu, pra ser muito sincera, eu só conheci dois tipos de pessoa. As que me entendiam e as que não me entendiam. Ai, que óbvio. Não. literalmente não existe meio termo, tipo, eu nunca conheci uma pessoa meio termo, que ela entende em parte o que eu tô falando. Não, porque ou você entende a linha de raciocínio, tipo, tá, eu sei da onde veio isso daí na sua cabeça, eu entendo, porque pra mim é a mesma coisa, só que de uma forma diferente. Só que eu sei que sentimento é esse. é muito específico, e não tem como você chegar a um entendimento de alguma das partes do que eu tô te falando, sem que você tenha esse tipo de forma de pensar. E aí, quando eu percebi isso, que só existiam esses dois tipos de pessoa, ou eu fiquei muito confortável, porque isso não aconteceu quando eu era criança, E dois, eu... Ah, acabei de me lembrar de um fato muito fofo também. Tipo, eu sempre fui, sempre, em todo lugar, em todas as escolas que eu ia. Era muito nítido que eu fazia aquela... E assim, se de toda sala tivessem um... A dupla de best friends era eu e alguém, sempre. Tipo, sempre. Desde criança. Desde o segundo que eu entrei na minha primeira escola. Minha mãe já me falou. A sua primeira melhor amiga foi a #######. Depois foi uma loirinha que eu não lembro dela. Mas por aí foi. E eu nunca deixei de manter esse comportamento. Nunca. E... E assim, o desespero que eu sentia quando, por exemplo, elas não estavam lá. Era um sentimento... Primeiro que eu diria que igual, desde quando eu era criança até bem mais velha. Até hoje é muito semelhante, é que hoje é muito menos intenso. Hoje é tão ok que eu consigo só parar pra perceber. Mas até os meus 14 anos... Era um sentimento tipo... de... nossa, assim, de perda absurdo. Era tipo... e não tô nem falando assim, ah, a minha amiguinha agora tem outra melhor amiga. Não, porque isso nunca acontecia. Todas as minhas melhores amigas, todas. Quando a gente se afastou foi por questões, tipo, da vida. Tipo, eu fui morar em outro país, eu mudei de escola, alguma coisa assim. Nunca foi porque, ah, uma deixou de andar com a outra. E aí... Eu... Eu não tinha medo de... Nossa, que elas parassem de ser minhas amigas. Nada disso. O meu único momento em que eu tinha pânico é quando elas não estavam lá. Porque quando elas estavam, era confiança 100%. E eu posso dizer que, vendo a minha cabeça hoje, é... Nunca existiu, em relação a minhas amigas, nenhum tipo de sentimento de desconfiança. Você fala assim, mas é óbvio, né? Porque você passou pelas coisas que você passou, como todo mundo, e aí você cria isso. Sim, mas quando eu falo pra você que era um extremo, era um extremo. Não existia em mim a desconfiança que, por exemplo, eu já conhecia. Eu já conhecia a desconfiança por outras pessoas. Eu já conhecia o que era o sentimento de... Eu não sei se o que você tá me falando é verdade. E eu vou ter que, tipo, ficar atenta. Pra caso não seja, já me preparar pra isso. Desde 8 anos de idade eu tenho esse pensamento. Óbvio, não da forma como eu falei, mas você entendeu. E sim, de pessoas... Aliás, as pessoas mais próximas de mim na vida. Ou seja, eu sabia que sentimento era esse. Só que em relação às minhas amigas, eu nunca tinha sentido nada próximo. E assim, eu posso falar que pelo que eu me lembro, Nunca tive razão também. Nunca. Por mais que eu fosse essa pessoa que, tipo... Por quatro anos, eu ia ser amiga de uma pessoa. Tipo, não que eu ia ser amiga só dela, mas... Que a gente não ia se desgrudar por quatro anos. Que a gente ia fazer tudo juntas. Tipo... Não ter sido, em nenhum momento... Não ter conhecido esse sentimento é muito bom, é muito bom. E eu nunca tinha pensado nisso, pra falar bem a verdade. Nunca tinha refletido nesse fato, mas refleti, está refletido, anotado. Nunca tinha passado por um sentimento de insegurança em relação às minhas amigas, botando ao ponto. Então assim, Eu lembro claramente de todos os dias que eu... Bom, não de todos os dias, mas eu lembro de momentos em que, sei lá, eu chegava na sala de aula e eu percebia, meu Deus, a ###### não tá. Meu Deus, o que eu vou fazer? Naquele momento eu já batia, tipo, toda aquela insegurança que eu tinha quando os meus pais me deixavam na escola, batia, na hora. Não importa o que você me falasse, não importa nada. Eu só ia me sentir minimamente segura de novo quando eu estivesse na minha casa. Aí... Ok. Tanto que eu lembro uma vez... Que essa minha amiga... Minha... Eu falo assim... Minha primeira melhor amiga... É... Que eu estava completamente consciente, que eu me lembro. Eu me lembro quando... Eu cheguei na aula e a gente tinha que fazer uma fila. Cada sala fazia a sua fila e você ia em ordem alfabética pra sala. E aí eu lembro, cadê ela? Meu Deus, cadê ela? Cadê ela? Cadê ela? Não estava lá. E eu já sabia, né? Ela não chega atrasada. Ninguém aqui chega atrasado. Ou seja, ela não vem. Ok. Eu acho que foi a primeira vez que... Ela tinha faltado na escola. Desde que eu era amiga dela. E eu posso falar que isso foi muito tempo. Tipo... Sei lá, um ano. E aí... ok. Ela... Ela... Eu cheguei em casa chorando pra minha mãe. Meu Deus, porque... Eu vou chamar ela de ##. A ## não veio pra escola, não sei o que. Liga pra mãe dela, liga pra mãe dela, liga pra mãe dela. Pove, ela tava muito doente. E a mãe dela falou que pelos próstipos, eu lembro exatamente, sete dias, quatorze dias, desculpa, quatorze dias, porque ela tinha pegado aquela, aquela... Qual que é o nome daquela doença que ficou super famosa, tipo, famosa ou não? Que todo mundo pegou na Espanha e que era grave. Ela falou quatorze dias. Eu morri. Eu falava pra minha mãe, pelo amor de Deus! Não me deixe ir pra escola! Por favor! Porque era um desespero. Tipo... E aí você fala assim, sua mãe não é #########, ela não vai deixar. Só que eu não tava falando aquilo, tipo... Pra manipular ela, porque não queria ir pra aula. Não! É porque a minha dor era astronômica. E era tão grande que eu... Que na hora eu não pensei, tipo, nossa... Minha mãe não vai deixar eu fazer isso, porque tipo assim... Eu vou te falar aqui na hora, eu pensei que fosse condizente ela deixar eu não ir. E aí... Tipo assim, pensa. Eu vi minha amiga ontem na escola. Hoje eu não vejo ela na escola. Ligo pra ela. Fico sabendo que ela não vai pelos próximos 14 dias e começo a chorar igual uma desesperada. Tipo assim, chorar. Mas chorar, tipo de morrer. Não mais saudade. Não é que eu tava com saudade da minha amiga. Não é que eu ia ficar com saudade. Não. Eu sabia que os próximos dias na escola iam ser um inferno na Terra. Pra mim, no caso. E coincidentemente, ironicamente... Eu vivi a minha infância, aprendi a ler, aprendi a escrever, até dividir, um pouco mais que dividir, eu tava lá. Isso assim, essa época na sua vida, não tô falando da matemática, tô falando dessa época da sua vida, é muito importante na forma com que você vê o mundo hoje, pra mim isso é muito óbvio. Tipo, isso molda o seu cérebro. Molda, tipo, a forma com que você pensa. A forma com que você vê as coisas. Como você entende, como você reage. Tudo bem que você pode parar e perceber, tá? Talvez essa não seja a melhor forma de eu reagir, talvez eu possa pensar. Sim. Mas até hoje você reage de uma forma, por conta de coisas que aconteceram com você naquela idade. E eu acho importante pontuar isso porque É importante pontuar que, por mais que pareçam muito bestas as coisas que eu falo, eu sei o quanto isso mudou na minha vida até hoje. Lá na Espanha, eu não sei como é hoje, provavelmente é igual. E muitas coisas me levaram a crer que no Brasil era muito diferente. Acredito até onde que seja. Acho muito difícil não ser, mas também não posso dizer que não é. Dizendo só da minha experiência agora. Desde que você é criança lá, quando eu falo criança é tipo, criancinha, você tem 3 anos de idade, você tá na escola. Os caras vão falar com você como se você fosse uma pessoa completamente consciente. E não só isso, lá eles têm total permissão pra serem uns completos de uns, tipo, sem noção com você. É tipo, você é um adulto frustrado? Você odeia criança? Seja professora na Espanha, você lá vai ter todo, tipo assim, eles vão te dar o aval, eles vão colocar um tapete vermelho na sua frente e falam Pode ser ridículo com as crianças. E eu falo isso? Não, porque... Ai, eu sou super experienciada com crianças e eu sei que elas são super fáceis. Não. Mas existe um ponto humano de você falar com crianças. Pra você ter uma noção, por exemplo. Eu, uma vez em toda a minha vida, esqueci um caderno na minha casa. Porque eles eram todos iguais. Eles eram da escola. Eles eram... Eu lembro exatamente como ele era. Ele era azul com o logo da escola várias vezes na capa. E era matemática, aula. Era um cara, tipo... Que claramente não tinha que estar lá. E aí... Eu comecei a procurar na minha bolsa. Eu tirei o caderno igual. Não sei como assim não aconteceu mais vezes. E... não era o de matemática. Na hora eu comecei a entrar em pânico. Comecei a entrar em pânico. Só que eu jamais teria a mínima da coragem de, por exemplo, fingir que... Tipo, eu poderia muito bem ter simplesmente aberto o caderno e começado a fazer as coisas que ele mandasse, tipo, nesse caderno. Querendo ou não, eu não ia saber. Mas eu, naquela época, nunca que eu ia ter a menor da coragem de ter a possibilidade desse cara querer ver alguma coisa e ele não ser o meu caderno. Bom, eu lembro que eu levantei, falei com ele, professor, então, eu troquei o caderno. Pove, não é que eu... Nossa, esqueci, meu Deus. Agora não é nem isso, eu trouxe um caderno exatamente igual, porque eles sabiam as cores, tipo, não era a gente que ia escolher. É... Uma vez na minha vida, eu tava no quarto ano. Pobre, eu estava naquela escola desde o primeiro, e o cara sabia muito bem que eu nunca tinha não feito uma lição de casa na vida. Aí, ele olhou pra mim e falou, você já sabe o que você vai fazer. Você sabe o que a gente tinha que fazer? A gente tinha que pegar nosso corpinho de oito anos de idade, Bater na porta do infantil, infantil era, sei lá qual que é infantil. Oi, tudo bem? Eu esqueci o meu caderno de matemática, me mandaram aqui. E aí você tinha que passar a aula inteira parada na frente da sala das crianças. Não sei, humilhação. ensinar as crianças a não esquecerem o caderno, pove, né? Na segunda vez que você esqueceu o caderno, você tinha que fazer o dia inteiro de trabalho voluntário, entre aspas, de catar lixo na escola. Ou seja, eu lembro de um cara que ele era tipo assim, ele tava cagando pra escola. Então, todo dia esse cara, enquanto a gente tava, por exemplo, na educação física, ele estava catando o lixo da escola. E um dos professores ficava com ele, tipo, senta vendo aquele papel ali e pega. Tipo, era um negócio desumano. Aí, ok. Obviamente, eu não fiquei, eu não me humilhei por conta das crianças de três anos que nem entendiam o que estava acontecendo. Não. Eu tinha, obviamente, criado pra mim uma sensação insana de não posso errar, não posso errar de jeito nenhum, porque, você já viu, quatro anos aqui, nunca tirei uma nota que não fosse 9 ou 10, literalmente, nunca não fiz uma lição de casa, nunca não fiz tudo, e aí uma vez eu troquei um caderno e eu tô aqui... Eu lembro que nesse dia eu cheguei pra minha mãe e eu fui contar pra ela, porque eu não consegui esconder as coisas. E eu contei pra ela, tipo, eu comecei a chorar. Porque eu achei, tipo, na minha cabeça, realmente, meu Deus, é muito grave. Tipo, eu não tinha... Eu não tinha a noção de falar, é... Que coisa de #########. Eu não tinha. Eu não tinha. Eu lembro muito bem do meu sentimento de pensar, realmente, eu não podia ter escrito em meu caderno. Então, isso, claramente... Deixou uma marca. E eu sempre achei muito engraçado o fato de que os meus pais nunca me deram, tipo, esse tratamento de... Se você não for bem na escola, você vai te ficar de castigo. Eu nunca fiquei de castigo em toda a minha vida. Do pior que eu já tenha feito na minha vida, eu nunca fiquei de castigo. Nunca. Tipo, se eu começasse a ir mal na escola... A última coisa que os meus pais iam fazer era, tipo, o que você está fazendo? Não. Eles iam, tipo, o que está acontecendo com você? Tipo, o que está acontecendo? Qual que é o seu problema na escola, onde você quer ir na escola? Então, eu sempre fiquei, tipo, tá, será que toda essa minha pressão, então, é porque existiu a zero pressão da parte deles, que eu precisei de alguma pressão? É o que eu sempre pensei. Hoje, eu percebo que, infelizmente, Por mais que muitas coisas lá tenham sido muito boas, muitas não foram. E uma delas eu falo que o meu complexo de pavor de errar é por causa daquelas professoras. Ponto final. Não tem, tipo... Três, eu tenho três na minha cabeça. Quatro. Que eu não consigo visualizar essas pessoas sem estarem com uma cara de de repulsa por todo mundo dentro daquela sala. Tipo, imagina alguém que acorda e o que ela mais quer é dar um berro na sua cara. Então, tipo assim, eu criei o senso de que eu não posso errar. Eu não posso errar, não importa o quanto eu acerte. Não importa. Errar uma vez não pode. Você pode não aparecer, mas você não vai errar. Era melhor se naquele dia eu não tivesse ido pra escola, do que eu ter, meu Deus do céu, esquecido pra se exterminar no céu. Isso era tão real na minha cabeça que eu não sei o porquê. Um dia a gente ia ter prova de bíblia, né? Eu não sei porque que eu tava tão perdida. Muito sinceramente, eu não sei porque que nessa matéria eu tava tão perdida. Muito provavelmente era porque o meu pai, ele tinha muito problema com isso. E... E eu, tipo... Evitava tudo que tinha a ver com isso. Não que eu evitava ir pra aula, não, mas... É... Eu evitava. Eu lembro que eu evitava. E aí... Eu tava muito perdida. Eu nem sei, nem sei, assim... Eu sabia que de certa forma... Eu lembro do meu sentimento de... Tá, eu tô aqui chorando aos pontos falando isso pra você, mas eu não tenho a certeza. Lógico que naquele momento eu não falei isso pra ninguém. Porque... Se fosse verdade, eu tinha um mega problema a ser resolvido. O que que aconteceu? A cena que eu me lembro na minha cabeça... É... A noite, começou a chegar a noite. E eu comecei a me desesperar. E eu comecei a chorar pra minha avó. Falei, meu Deus, amanhã a gente vai ter uma prova. E a prova é a Bíblia inteira. Mas pode pensar assim, você é burra? Não, eu... Por alguma razão, aquela professora, que eu leio muito bem... Não, obviamente, não falou isso, obviamente. Mas falou alguma coisa. Que só à noite eu fui processar. E, obviamente, eu não tinha o celular pra perguntar pra minha amiga. Oi, tudo bem? Vai ser isso? Não. O que fosse, eu ia saber no dia seguinte. E eu era do tipo, assim... Eu... Se a prova era amanhã, eu ia ficar... Decorando. Eu não ia fazer uma prova, assim... Sem saber que eu sabia cada palavra daquele caderno. Cada letra. Eu tinha que visualizar na minha cabeça cada letra. E aí... Eu sabia que não ia conseguir, obviamente. Só que foi a primeira vez que eu me senti, tipo, impotente. Tipo, o que eu vou fazer? O que eu vou fazer? E pra mim, não existia isso de, ah, eu vou avisar pra minha mãe que amanhã tem a prova da Bíblia inteira. Eu não sei responder. E que eu vou trazer um zero pra casa. Isso não existia pra mim. Não existia. Não era uma possibilidade, sabe? Então eu lembro de ficar, tipo... Numa situação de estar assim. Eu não vou trazer um zero pra casa, mas então o que eu vou fazer? Tipo, tentando... Eu lembro que eu tava no desespero porque minha avó, ela era muito religiosa, tipo... Me explica, me explica, me explica. E eu realmente, eu tinha esperanças de que... de que eu aprenderia. Não muitas, porque pra mim aprender metade era aprender nada. Mas... Mas eu tinha esperanças que eu ia conseguir aprender tudo naquele período de tempo. Ok, uma coisa também que eu me lembro. Quando eu comecei a aprender subtração, de matemática. Eu lembro que a linha foi uma das primeiras vezes na minha vida em que eu percebi... Talvez ninguém entenda o que eu tô querendo dizer. Eu sempre tive muita dúvida em relação ao seguinte. Tá. 10 menos 5. Eu vou contar. 10, 9, 8, 7, 6. 6. A resposta é 6 ou a resposta é 5? Você tem essa linha de pensamento, aqui você já tem uma dúvida. A mesma dúvida fica quando você faz na cabeça. Eu conto a partir do 10, eu lembro exatamente do momento de ir explicando isso pra minha mãe. É para eu contar a partir do 10 ou a partir do 9? 10, 9, 8, 7, 6, 5. Entendeu? É para eu ficar no número. Depois do último número que eu falei, é pra eu começar a partir do número abaixo do número que você tá me pedindo pra subtrair, e assim... E eu sei que parece uma discussão de #########, mas faz muito sentido. Faz todo sentido do mundo. Como é que eu ia saber? Eu sabia que subtrair ia ser um grande problema para a minha vida e para o resto da vida. Não um problema, mas eu sabia que eu ia usar aquilo o tempo inteiro. Ou seja, eu não posso ter a dúvida disso. Tipo, eu não posso, na hora, não saber se eu tenho que contar a partir do número que vocês estavam pedindo para subtrair ou se eu devo contar a partir de um abaixo. Ou olhando pela outra perspectiva, se eu fico no último número que eu falei, ou se eu tenho que descer um. Entendeu? E eu lembro da minha mãe brigando muito comigo. Porque eu tirei zero. Essa foi a minha prova que eu tirei zero. Tirei zero. E, obviamente, porque todos os números que eu tinha colocado lá eram um acima do número que tinha que ser. Não me pergunte também porque eu... Tipo, aí que fica. Você fala, tá, mas se você começou com essa dúvida, era só você ver o seu professor fazendo uma conta que você ia acenar a sua dúvida. Total. Totalmente. Tipo, 100% isso. Mas, no momento em que aquela dúvida Brutal, surgiu na minha cabeça, eu te garanto que não passava mais nada na minha cabeça além dessa dúvida. Principalmente, passava... Como é que eu vou perguntar isso pra alguém? Porque eu sei que não vou entender muito bem o que eu tô querendo dizer. E não pense que esse foi o meu primeiro pensamento, porque não foi. Meu primeiro pensamento foi, eu vou perguntar pro meu professor. Eu lembro dele muito bem, ######. Ele não tinha nenhum problema, ele não chegava na nossa casa e gritava. Mas, fui perguntar pra ele e ele me explicou. Da mesma forma com que ele explicou na lousa, ou seja, não adiantou de nada. Eu voltei pra minha cadeira com a mesma dúvida, porque muito provavelmente ele não entendeu a pergunta que eu fiz. Muito provavelmente, eu fui muito confusa na forma com que eu perguntei. Mas, é. E aí, obviamente, depois que eu fui desentendida pela pessoa que pra mim era pra tirar mais dúvidas, eu decidi claramente que eu não ia perguntar mais pra ninguém e que eu ia descobrir sozinha. Pove? Chegou no dia da prova. Eu não sabia responder. Pove? Eu sabia responder do meu jeito, né? E o que foi muito estranho pros meus pais, porque eles nunca tinham visto nada parecido. E aí... É... Parecia que, tipo, do nada. Eu lembro que minha mãe tava mais em choque do que qualquer coisa. Porque tirar zero... Tipo, eu não acertei em nenhuma conta. E aí... É... Eu... Eu acabei, tipo... Eu não me lembro como eu sanei essa dúvida. Sinceramente, eu acho que foi sozinha. Prestando muita atenção nos... Outros fazendo a conta. Mas é... Agora eu tô muito na dúvida do que eu deveria fazer da minha vida nesse momento. Porque... Eu não sei o que você quer ver, você quer ir lá? Gostei. É pessoal.